Joaquim Barbosa e o preconceito involuntário

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Há muito quero escrever sobre isso, mas vinha adiando porque não quero posar de juiz da moral alheia – até porque, muitas vezes ninguém precisa fazer nada contra algo que está errado porque, de tão errado, atrai reações óbvias e previsíveis. E consequências.

Preocupa-me, porém, uma coisa: já escrevi sobre esse problema outras vezes. Em 25 de agosto do ano passado, escrevi a crônica “A ‘redenção’ de Joaquim Barbosa”, na qual previ o que sobreviria com alguém que sempre foi rejeitado pelas elites, mas que se tornara útil.

Eis o trecho final do post:

“(…) Joaquim Barbosa é um vencedor. Sua trajetória, antes empanada por acusações de cunho racial na mídia, não encontra mais óbices. A postura que adotou no julgamento do mensalão quebrou as resistências que a cor de sua pele sempre lhe gerou entre uma elite que agora o idolatra e defende, ao menos enquanto lhe for útil.

No post, discorri sobre a linda trajetória de vida de Barbosa. Impressiona a tenacidade de alguém que teve uma origem tão desvantajosa – nasceu pobre e com cor da pele que, neste país, historicamente é alvejada pelo preconceito – e, assim mesmo, chegou a tão alto cargo da República.

Barbosa é culto, inteligente, superou barreiras inimagináveis e, graças a Lula, teve sua trajetória épica compensada. Acredito que, se não fosse Lula, não lhe reconheceriam os méritos.

Antes combatido pela mídia, com seu desempenho no julgamento do mensalão tornou-se um instrumento poderosíssimo de combate político, mesmo que não queira – e eu acho que, no mínimo, aceita ser instrumentalizado.

A mídia se aproveita, pois, de um fato doloroso sobre o nosso país. O preconceito é tão maior do que pensamos, por aqui, que todos somos ameaçados por ele – se não como seu alvo, de o usarmos sem que percebamos.

Quero, pois, oferecer a minha opinião sobre as críticas que Barbosa recebe – muitas das quais, compartilho.

A cor da pele dele jamais deve ser lembrada. Nem diretamente, nem por alusões. Mas não só.

É preciso verificar, ao criticá-lo por suas posições políticas e ideológicas e por sua personalidade, digamos, mercurial, se não se está incorrendo em uma crítica – e críticas podem ser feitas por representações literárias e imagéticas – que pode dar curso a interpretações racistas.

Há um sem-número de estereótipos que os opressores dos afrodescendentes usam há séculos – e até hoje. Alguns são mais perigosos do que parecem. Assim, nada, absolutamente nada que lembre a cor da pele de Barbosa deve ser usado em uma crítica a ele.

Muitos têm repreensões de cunho político e comportamental a fazer a vários ministros do STF – só para ficarmos no foco da questão. Por que não fazemos críticas a um Marco Aurélio Mello, a um Ricardo Lewandowski ou a um Luiz Fux – todos sempre muito criticados por seus adversários políticos ou ideológicos – que lembrem a cor de suas peles?

Não vou dar exemplo algum do que pode ser considerado racismo ao criticar Joaquim Barbosa. Só penso que, se fosse feito algo assim por um adversário de posições políticas, talvez eu não fosse tão generoso quanto seria com alguém que estivesse mais próximo de mim.

E não adianta quem diverge de mim, política ou ideologicamente – ou que, simplesmente, não vai com a minha cara –, acusar-me de hipócrita. Duvido de que se você tiver um amigo ou companheiro de luta envolvido em uma conduta que possa ser interpretada como racismo investirá contra ele com o mesmo ímpeto com que investiria se fosse um adversário.

Que ninguém que diverge ou que não gosta de mim ouse ser tão hipócrita. Mas, como não posso controlar a hipocrisia alheia, o jeito será ignorar, se alguém for tão cara-de-pau.

O que me resta dizer é que o preconceito se entranhou tanto entre os brasileiros que até os alvos de preconceito fogem de assumir a característica física ou comportamental que os distingue de forma injusta e dolorosa.

Quantos homossexuais deixam de assumir a própria homossexualidade por medo da reação preconceituosa da sociedade? Quantas pessoas mestiças não rejeitam que um documento de identidade as descreva como “pardas” e se autodeclaram “brancas”?

Se os próprios alvos do preconceito acabam colaborando para ele – de uma forma, é preciso dizer, absolutamente compreensível –, que dizer de quem nunca sofreu preconceito pela cor da pele, pela orientação sexual, pela crença religiosa etc.?

Alguém que não sabe o que é ser alvo de racismo talvez tenha dificuldade de entender como alguém que tem uma característica alvo de preconceito se sente quando tal característica é lembrada de forma pejorativa ou mesmo “de brincadeira”.

Nessa questão do racismo, a receita para não incorrer nele, voluntária ou involuntariamente, é nunca, jamais, em tempo algum criticar alguém de alguma mínima forma que lembre a cor de sua pele ou qualquer traço físico. Há que pensar muito ao criticar um alvo de preconceito.

O fato é um só: não importa o que alguém, amigo ou inimigo, tem por fora, na pele, nos traços físicos. Para criticá-lo, o que vale são as suas condutas, o que tem por dentro, na mente, na alma e no coração. É simples assim.

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120 Comentário

  1. O texto é claro, no sentido de que jamais pode-se criticar alguém com base, ainda q por mera alusão, em uma característica étnica, de gênero, religiosa, ou eventual aspecto físico ou intelectual próprio.
    Mas o preconceito, caro Edu, é uma chaga gravada a fogo na alma das pessoas. Nascemos limpos e puros, mas a sociedade em que vivemos vai moldando nosso ser e dificilmente podemos escapar completamente desse tipo de veneno social que nos é inoculado.
    O mundo é preconceituoso e discriminatório em inúmeros aspectos. Ainda teremos que avançar muito no processo civilizatório até que o ser humano possa ver o outro, qualquer outro, sempre como igual em direitos e obrigações.
    Eu fui criada numa família que se dizia não racista, mas que o era tanto quanto a maioria da época. O preconceito com o negro e principalmente com o pobre é uma marca da sociedade brasileira desde a colônia. Racismo e preconceito dividido e compartilhado com o mundo todo, é bom que se diga.
    Superar o preconceito forjado em nosso ser, por mais que o tentemos ignorar, é uma tarefa diária, contínua e que talvez nem em uma vida inteira consigamos cumprir. Mas a consciência de que é imperativo fazer isso conosco, com nossos filhos e netos, todo o tempo, sem trégua, já permite vislumbrar, quem sabe, um futuro melhor no campo dos direitos humanos.
    Um abraço.

    • outro abraço

    • O complexo de inferioridade racial em JB se manifesta pelo seu contrário. É uma forma freudiana de expressão. Ele está a todo o momento reafirmando um complexo de inferioridade traduzido pela megalomania comportamental agressiva.

  2. Deixa de ser hipócrita. A cor da pele deve ser lembrada sim. Ele chegou ao STF pelo fato de Lula querer fazer demagogia etnica. Acabou levando para o STF um carreirista que se esgrime na cor da pele para conseguir ascensão de qua;quer maneira e de qualquer modo. Parece que JB é o único juiz negro do Brasil. Há outros que realizam um trabalho à altura da dignidade que o poder judiciário exige. Além do que, o STF, não é lugar de indicações vocacionadas à demagogos. Lá devem estar os que zelam pela constituição independente de origem, sexo ou cor.

  3. A cor do JB é a cor da saudosa Clementina de Jesus e a do Cartola. A lembrança que tenho destes é a voz:. o vozeirão gostoso da Clementina e a candura da voz do cartola. Boas lembranças.Embora a voz do ministro seja bela em seu timbre, no entanto é grosseira, arrogante, autoritária e descortês. Não julgo a cor, não julgo o saber jurídico, mas a deselegância no trato com o outro. Ele é muito mal educado! É interessante notar que quem mais ele destratou é o ministro exatamente oposto a ele quando o quesito é elegância e cordialidade. Freud explica?

  4. O Richard disse tudo com poucas palavras. Parabéns.

  5. O que pensar disso?

    Jornalista brasileira é presa nos EUA durante visita do presidente do STF

    Cláudia Trevisan, do Estado de S. Paulo, foi algemada e presa na Universidade de Yale ao aguardar a saída de Joaquim Barbosa de uma conferência

    Ao aguardar a saída do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, de uma conferência na Universidade de Yale, em Washington (EUA), uma jornalista de O Estado de S. Paulo foi detida e algemada. Cláudia Trevisan foi mantida incomunicável dentro de uma viatura e em uma cela do Departamento de Polícia da universidade, segundo informações do periódico. A liberação ocorreu somente após ela ser autuada por “transgressão criminosa”.
    O Itamaraty acompanhou o caso em Brasília e colocou à disposição da jornalista seu apoio jurídico. Claudia Trevisan é correspondente do jornal em Washington desde o final de agosto e nos últimos cinco anos trabalhou na China.
    “Eu não invadi nenhum lugar. Passei cinco anos na China, viajei pela Coreia do Norte e por Miamar e não me aconteceu nada remotamente parecido com o que passei na Universidade de Yale”, disse ela ao Estado de S. Paulo.
    Segundo a jornalista, ela foi destacada para cobrir a visita de Barbosa à Universidade de Yale, onde participaria do Seminário Constitucionalismo Global 2013, e trocou e-mails com a assessora de imprensa da Escola de Direito da universidade, Janet Conroy. O prédio é percorrido constantemente por estudantes e funcionários da universidade e por turistas e as portas estavam abertas às 14h30 de quinta-feira, informou o jornal.
    “Nós sabemos quem você é. Você é uma repórter, temos sua foto. Você foi avisada muitas vezes que não poderia vir aqui”, disse um policial, segundo relato de Claudia Trevisan.

  6. Paul Gilroy – O Atlantico Negro

  7. Olá, achei muito bacana o texto, minha turma esta participando de um projeto e nos foi proposto a criação de uma blog, para falarmos de assuntos como o preconceito, homossexualismo, discriminações em geral, agradeço muito se derem uma olhadinha no nosso blog. Desde já, muito obrigado http://vozessilenciadasifnm.wix.com/solteasuavoz

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