Vire à esquerda, presidenta

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Olhando as ondas humanas que engolfaram as ruas do Brasil no último domingo, a impressão que se tem é a de que o país é hoje todo de direita. Porém, não é bem assim. Essas manifestações não contaram com movimentos populares como de mulheres, homossexuais, negros etc., que, via de regra, costumam estar presentes em grandes atos públicos.

O site da BBC Brasil também contraria essa percepção de que o Brasil “endireitou”. O que constata a empresa jornalística de matriz britânica é, ipisis-litteris, o mesmo que foi dito nesta página no post anterior: tratou-se de um protesto da dita “elite branca”.

Para chegar a essa conclusão, a BBC Brasil fez um apanhado do que opinaram grandes veículos da imprensa internacional. Vejamos o que foi dito.

Centenas de milhares de brasileiros predominantemente brancos e de classe média tomaram as ruas ontem [15/3] para pedir o impeachment da presidente e, alguns, um golpe militar”, publicou o britânico The Guardian.

Já o espanhol El País noticiou, na capa do periódico, que “os protagonistas das marchas pertencem às classes médias mais educadas“.

No insuspeito argentino Clarín, destacou-se que o deputado federal Paulinho da Força (SD-SP) foi “o único que levou grande número de manifestantes que não são nem brancos nem ricos para a manifestação“. Mas o jornal destacou que Paulinho foi hostilizado pelos manifestantes, pois estes têm ojeriza a trabalhadores e sindicalistas.

Se restasse alguma dúvida do caráter de ultradireita dessa manifestação, bastaria verificar que os motivos militares com pregações de golpe de Estado a la 1964 foram aceitos sem maiores problemas nessas manifestações.

Além disso, segundo o instituto Datafolha 82% dos participantes desses protestos votaram em Aécio Neves na eleição presidencial do ano passado.

Esses dados são mais do que suficientes para que a presidente Dilma e seu estafe se convençam de que não adiantará se ajoelharem no altar dos adversários e, sobremaneira, da ultradireita que manteve este país prisioneiro durante duas décadas, sem poder se manifestar eleitoralmente.

O que acontece é que a maioria que elegeu o atual governo está desmotivada, calada, acuada e, em grande parte, decepcionada, de modo que não aderiu aos protestos levados a efeito pela Central Única dos Trabalhadores dois dias antes do protesto reacionário.

Dilma assumiu seu segundo mandato com uma agenda destinada a pacificar o “outro lado”, ou seja, aqueles que derrotou em 26 de outubro do ano passado. Não funcionou. Na abertura da atual Legislatura, o candidato derrotado no segundo turno, Aécio Neves, deu a senha. A grande mídia, idem. Não estavam – e não estão – dispostos a aceitar o resultado da eleição.

Dilma também buscou fazer um agrado ao capital ao nomear como ministro da fazenda um Armínio Fraga “fake”, ou seja, uma cópia “light” daquele que Aécio anunciou, durante a campanha eleitoral, que seria o seu ministro da economia.

Dilma chegou a dizer, durante a campanha eleitoral de 2014, que ajustes na economia seriam necessários, mas não os especificou. E muito menos explicou que, devido às políticas anticíclicas que adotou para que os brasileiros não sentissem a crise internacional, as contas públicas foram se desajustando, o que fez os investidores se retraírem.

Como esta página vem explicando desde o “day after” das eleições, sem investimentos privados o Brasil não cresce. Ora, as contas públicas, tanto quanto as privadas, sofrem reajustes.

Assim como aumentam a escola dos filhos ou o aluguel, as despesas do Estado sofrem reajustes. Se o país não cresce, o governo, assim como o cidadão, tem que recorrer ou à poupança ou ao “cheque especial”.

Ao longo dos últimos quatro anos, o governo federal tratou de impedir que a crise internacional afetasse os brasileiros gastando acima do que arrecadava em impostos e por outros meios.

O resultado é que há uma conta que chega a 100 bilhões de reais (dívida no “cheque especial”), o que nem chega a ser muito para um país cujo PIB beira os 5 trilhões e que tem quase 400 bilhões de dólares de reservas cambiais, mas, para quem decide se vai investir, o fato de o país estar “no vermelho” inibe essa decisão de investimento.

O fato é que a política econômica de Dilma está correta. É possível fazer esse ajuste sem grandes sacrifícios. Porém, a presidente não levou em conta a política. Não imaginou que a oposição e a mídia não aceitariam o resultado da eleição.

O grande erro de Dilma foi não preparar o povo e as forças políticas de esquerda que a apoiaram no segundo turno para o ajuste fiscal. Deixou de lado quem trabalhou por sua reeleição e foi afagar aqueles que a cada afago respondem com um chute na canela ou, como no domingo, com um soco no rosto.

Se os protestos de sexta-feira 13 tivessem sido em favor da presidente e atraíssem a sociedade civil em grande número, teriam anulado os protestos de domingo e ficaria tudo na mesma. O problema é que inúmeras entidades de esquerda nem deram as caras e os cidadãos progressistas, salvo raras exceções, ficaram em casa.

Isso sem falar que o ato da CUT continha críticas ao governo…

Ainda no domingo, com as ruas do país ainda tomadas pelos tarados de ultradireita que saíram protagonizando cenas que lembram a ascensão do nazismo na Alemanha, ministros de Dilma deram declarações de “humildade” e ensaiaram uma tentativa de diálogo com as massas revoltadas. Na segunda-feira, a própria Dilma pediu compreensão.

Tudo perda de tempo.  A presidente colheu mais panelaços enquanto contemporizava na TV.

É impossível contemporizar com aqueles que fizeram bonecos de pano simulando a presidente da República e seu antecessor e os penduraram pelos pescoços em viadutos, sugerindo linchamento físico de ambos.

O que resta a Dilma é a esquerda (do centro à extremidade). Esse setor foi majoritário na eleição de 2014, bastando para reelegê-la – ainda que parte do eleitorado que reconduziu a presidente ao poder não tenha ideologia, mas medo de perder tudo que conquistou nos últimos 12 anos.

Em vez de Dilma ficar afagando quem não quer seus afagos e, sim, o seu sangue – em alguns casos, literalmente – deve tentar – ao menos tentar – um diálogo com a esquerda.

Claro que o grande problema da esquerda é o mais absoluto desconhecimento de economia e de administração pública, até porque quem administra a coisa pública desde de sempre, neste país, é a direita – seja mais moderada, seja mais radical.

Porém, se Dilma chamar as lideranças de movimentos sociais e partidos de esquerda para o diálogo, pode tentar conseguir apoio que lhe permitirá governar e que evitará, para a própria esquerda, que seja dizimada pelo conclave reacionário de ultradireita que vai se formando.

O que Lula, Dilma e o PT têm que tentar é fazer a esquerda pensar no “day after”, ou seja, dizer a movimentos sociais, sindicais e partidos se já refletiram sobre o que sobrevirá caso ela seja derrubada ou mesmo se tiver que governar por quatro anos como uma marionete, cedendo a tudo que a ultradireita neoliberal quiser.

Mais: há que propor uma agenda progressista a partidos, sindicatos, movimentos sociais e mesmo aos cidadãos com pensamento de esquerda. Uma agenda a ser implementada conforme a situação político-econômica se estabilizar.

O que vai exposto acima não chega a ser o melhor dos planos, mas, no entender deste blogueiro, é o que há para hoje. Antes de começar redecorar a casa incendiada, há que apagar o incêndio. E fazer afagos na direita, no momento, equivale a jogar gasolina nesse incêndio. Quanto mais Dilma falar para essa gente, mais furiosa ela vai ficar.

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202 Comentário

  1. Bom dia a todos. Apesar de ter votado em Lula nas duas vezes e em Dilma na primeira (na segunda, fui de Marina), não concordo com muito do que exposto aqui, mas gostaria de saber de vocês qual a opinião em relação a alguns assuntos atuais. Por favor, quero esclarecimentos, opinião, sem ofensas, assim como não quero ofender ninguém.

    – O que acham do vídeo do Marcelo Heitor, sobrinho do Zeca do PT, desdenhando das manifestações, chamando jocosamente os adversários de “direitinha”, enquanto dirige um carro de luxo?

    – O que acham de terem ajudado o companheiro Dirceu no pagamento da multa enquanto ele ganhou mais de 29 milhões em consultoria em sete anos, inclusive quando preso, sem ao menos ter uma empresa com técnicos especializados, sendo somente ele a ser consultor de empresas das áreas mais diversas, como bebida, logística e farmacêutica…ele precisava dessa vaquinha?

    – O que acham da gravação onde a representante da OPAS, ao tratar dos mais médicos, sem saber que estava sendo gravada, admitia que o programa era para ajudar Cuba e a colocação de médicos de outras nacionalidades era somente para disfarçar?

    Por favor, quero opiniões, não ofensas. Quando busco na imprensa tradicional, só vejo críticas, mas eles fundamentam, mesmo que muitas vezes de forma errônea. Como vocês justificariam esses fatos?

    Grato

    • Vou responder:

      1 – Tentar desqualificar fato inquestionável de que foi uma classe social, a mais abastada, porque um petista dirige um carro bom, como qualquer outro político, é reduzir o debate a nada. A imprensa internacional reconheceu o caráter elitista dos manifestantes e o Datafolha que saiu nesta quarta mostra o perfil sócio-econômico dos manifestantes.

      2 – Quem doou a Dirceu sabia que ele é um consultor de sucesso tanto quanto um Pedro Malan, um Gustavo Franco ou um Pérsio Arida, que entraram professores no governo FHC e hoje são banqueiros. As doações foram uma forma de solidariedade.

      3 – Não vi essa gravação, nem sei se existe, pode até ser falsa ou quem disse tal coisa pode ser suspeito, porém o que o Mais Médicos produz para a população carente é visível e quem precisa, sabe quanto está ajudando. Localidades em que havia pessoas que nunca tinham passado por um médico em toda vida, estão sendo atendidas. Para a classe média com acesso a tudo, muitas vezes é difícil compreender algo assim.

      Aqui não há ofensas a quem se dirige respeitosamente. Se vier comentar com educação, mostrando que quer um debate saudável, será tratado de acordo. Sua insinuação que tenta desqualificar os comentaristas desta página, porém, é uma forma de agressão, o que torna justificável se alguém sentir-se incomodado. Eu não me sinto, porque seu comentário semi-civilizado me dá a possibilidade de adentrar uma área que os trolls temem, ou seja, o debate racional, já que se amparam no senso comum burro, truculento e covarde, pois atacam mascarados pelo anonimato, já que morrem de medo de assumir o que sai de suas bocas e dedos

      • Obrigado pelos esclarecimentos. Não me respondeu completamente alguns pontos.

        Como por exemplo o sobrinho do Zeca tratar jocosamente a direita, os capitalistas como um todo, ao passo que usufrui do que o capitalismo tem a oferecer. Acho que ele tem direito de ter um carro legal, mas fica estranha a incoerência entre discurso e ação.

        Também não acho que elucidou muito em relação ao Dirceu, pois ele recebeu uma quantia muito alta para não comprovar serviços com equipe especializada e estudos aprofundados, mas a consultoria era somente seus conselhos. E solidariedade dos aliados acho válida, mas não creio que ele necessitaria das doações em dinheiro, ainda mais vindo de militantes menos favorecidos. Mas respeito a sua opinião, obrigado por dividi-la conosco.

        Quanto aos mais médicos, trata-se de uma reportagem da band News. Envio o link

        http://noticias.band.uol.com.br/brasil/noticia/100000741766/mais-medicos-ministerio-da-saude-tentou-mascarar-acordo-com-cuba.html

        Não pretendo desqualificar ninguém. Mas posts contrários ao governo em ao PT aqui, vejo respostas agressivas chamando o discordante de PIG, golpista, etc, provavelmente sem ler o que o outro tem a dizer. Por isso não concordo muito com o semicivilizado….acho que discordar de alguém a princípio não significa desqualificar ou ofender.

        Ah sim, não sou de direita antes que alguém posa falar. Considero-me de centro-esquerda. Acredito no estado de bem estar social da social-democracia europeia (convenhamos, não tem nada a ver com o PSDB daqui, que é um PMDB recauchutado…literalmente), mas com um pouco menos de intervenção estatal que prega a esquerda tradicional.

        Abraços

        • Cada um acredita no que quer, quando se está no campo das inferências

        • Jonas, sendo você uma pessoa sensata, você dá crédito a “reportagens” como esse da Rede Bandalha News, que aceita divulgar qualquer coisa que ataque o Governo Dilma?

          Uma “reportagem” como essa da Rede Bandalha News só ocorre para fomentar ainda mais o ataque a um governo democrático e que busca o desenvolvimento do país. Você não percebeu isto?

          Você, sendo uma pessoa sensata, acha que a vinda de milhares de médicos cubanos não melhorou a situação da saúde pública pelo interior do país? E acredita na tese de que o Governo Federal só trouxe estes médicos para ajudar simplesmente o governo cubano?

          Se a Rede Bandalha News mencionar em suas reportagens tendenciosas que as atitudes de Dilma Rousseff são atitudes bolivarianas você vai acreditar?

          Incrível, mas o discurso dos deputados e senadores do PSDB-PFL-SD-PPS batem justamente nessa tecla da ajuda a Cuba e na bolivarização e chavização do Brasil. Sinceramente, você acredita neste discurso da Rede Bandalha News e outros órgãos do PIG?

      • É isso aí Eduardo.
        Moro aqui em Campo Grande-MS onde também reside o Marcelo Heitor, autor do vídeo em questão.
        Não sei se você viu o vídeo, mas, não contém nada ofensivo e tudo o que ele disse não passou do que popularmente se chama de “zoeira”, ao contrário de centenas e talvez milhares de vídeos disseminados por aí com xingamentos e ofensas a todos os petistas e eleitores da Dilma.
        O que realmente causou indignação aos revoltontos foi o fato do petista estar em um, como se diz, carrão, porque para essa gente, petista tem que andar sempre a pé ou de busão.
        Eu e mais alguns petistas travamos um longo embate com eles pela rede social aqui em Campo Grande.
        Pura perda de tempo, pois, eles são incapazes de um debate civilizado e distribuíram apenas xingamentos e ofensas de todos os tipos.
        Lembramos a eles que ofensivos a todos eram os vídeos disseminados por uma das organizadoras da manifestação de domingo de nome Débora Albuquerque, mas eles se negavam a levar adiante qualquer argumentação.
        Se o Marcelo Heitor tivesse gravado o vídeo dentro de uma brasília velha não teria causado nenhuma indignação nos revoltontos daqui.

  2. Belo texto Edu.

    A minha duvida é onde fica o PMDB nessa curva a esquerda…
    Vão caindo do carro aos poucos? Vão ser deixados antes da curva?
    Me parece muito difícil trocar os ministros que são as peças do carro, tão já, e com os ministros que aí estão só sai governo técnico e política nenhuma.
    Dilma me parece numa sinuca de bico.

  3. Eduardo, penso que nós, os eleitores da Dilma, poderíamos elaborar um texto contendo os questionamentos que temos visto nos fóruns de discussão da esquerda (blogs, facebook, etc) e, também, demonstrando apoio. Esse texto poderia estar num abaixo assinado da change.org, por exemplo. Ao mesmo tempo enviaríamos, cada um de nós, o mesmo texto para e-mail do planalto.
    Faço essa proposta porque só batemos cabeça discutindo entre nós, isso não chega à Presidenta porque, pelo jeito, nem ela nem ninguém da sua equipe ausculta o que rola na internet. Creio que se informam sobre os sentimentos do povo pelas manchetes do PIG.

  4. acredito não ha possibilidade de dar votos em Aécio, e quem votou Marina votou Aécio uma boa parcela dos eleitores, mas a medida que vamos passando o ano, Dima tem que se posicionar mais a esquerda mesmo, porque os ecistas, só querem derrubar ela, antes que venha perder os que ainda esta do lado dela, mas isto é só meu pensamento

  5. Fora PMDB do Governo.

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