Só o PT pode eleger ou derrotar o PT

Buzz This
Post to Google Buzz
Bookmark this on Delicious
Bookmark this on Digg
Share on FriendFeed
Share on Facebook
Share on LinkedIn

 

Chegamos ao estertor do ano pré-eleitoral de 2013 com o país indo bem, superando uma crise internacional que colocou o Primeiro Mundo de joelhos, com a economia se preparando para um salto, com a pobreza e a desigualdade caindo, com pleno emprego, com salários subindo…

Em tese, um país com a trajetória em que segue o nosso dificilmente sofrerá mudança de governo a não ser que seu eleitorado seja ludibriado ou que o partido desse governo ou ele mesmo cometam algum erro colossal.

Como em toda eleição desde 2002, sempre aparecem candidatos a governar o Brasil enxergando um “sentimento de mudança”, mas tudo isso não passa de balela. Só se quer mudar o que está indo mal. Esse desejo de “mudança”, pois, não é do povo, mas de uma parcela que já deseja o mesmo há muito tempo e que vem se mostrando minoritária.

Burra, desinformada, ignorante, conformista, seja lá como queiram chamar a maioria que elegeu o atual grupo político em 2002 e não parou mais de reeleger, o fato é que essa gente sabe muito bem por que tem feito tal opção política.

Só quem não sabe é quem acha que essa maioria não sabe o que faz ou por que faz.

O que pode derrotar o PT, então, no ano que vem?

Em primeiro lugar, a sua forma de lidar com as críticas construtivas, justas e bem-intencionadas. Claro que o partido sofre críticas injustas demais e, assim, seus expoentes e seus anônimos vivem na defensiva, mas não são todas as críticas.

Sem entender isso, não só o PT como qualquer um estará semeando o fracasso.

Há problemas com o PT, por exemplo, no que diz respeito à política. O partido, em suas alas majoritárias, parece que abdicou por um bom tempo de fazer política, talvez achando ser possível coexistir com as forças políticas extrapartidárias que o combatem, como a mídia.

Esse tipo de erro de avaliação ficou patente durante recente entrevista de que participei com o prefeito Fernando Haddad. Ele mostrou certa surpresa diante dos ataques que passou a receber da mídia após o “aumento” do IPTU ou após a investigação da corrupção na gestão anterior.

Altos petistas instalados no Poder Executivo, portanto, precisam saber separar as críticas construtivas das destrutivas e oportunistas. Frequentemente, governantes desse partido tem sido intolerantes com as primeiras e tolerantes com as segundas.

Não é o caso do prefeito Fernando Haddad, vale dizer. Na entrevista que mencionei acima ele se mostrou surpreendentemente aberto a críticas de blogueiros que vêm questionando sua administração no que tange a políticas de comunicação.

Haddad admitiu com tranquilidade que não está conseguindo se comunicar com aqueles que elegeu por não saber como furar o bloqueio da mídia, que vem tratando de confundir o eleitorado acusando seu governo daquilo pelo que não tem a menor responsabilidade.

Mas essa não é a realidade do governo federal, que, após a saída de Lula, passou a ver os movimentos na internet que o apoiam como um constrangimento, mas só até o ponto em que percebeu que sem esses movimentos a mídia estaria agindo sem contraponto, ainda que tal contraponto seja pífio diante do poder midiático.

Ou nem tanto…

É claro que blogs e redes sociais não têm a força da televisão, mas vão disseminando informações que, se forem corretas e justas, acabam encontrando eco entre formadores de opinião que passam difundi-las.

Ou seja: esqueçamos do público submisso a um meio de comunicação. O público, hoje, é crítico, é formulador inclusive de correntes opinativas. Pode contrariar grandes grupos de mídia, governos, qualquer cacique que o queira conduzir como gado.

Nesse aspecto, a forma de governantes petistas lidarem com críticas precisa ser muito bem pensada. As críticas mal-intencionadas têm que ser rebatidas sem a menor hesitação, pois quem cala, consente. Mas é das críticas bem-intencionadas que os governos petistas podem tirar reflexões vitais.

Na segunda-feira, deixava a prefeitura de São Paulo e, a alguns metros do edifício que lhe serve de sede, vi duas mulheres de aparência humilde, cheias de sacolas, criticando com fúria o governo da cidade, que não tem nem um ano.

Provavelmente residem na periferia, de forma que deverão ser beneficiadas por um novo modelo de IPTU que vai reduzir o imposto para quem vive nas franjas da cidade. Contudo, diziam que essa era mais uma artimanha petista para roubar o povo pobre…

Fiquei estarrecido. Como essa gente pode não saber que será beneficiada?

Francamente, não sei como o governo Haddad ou mesmo o governo Dilma podem enfrentar uma campanha midiática desse tamanho, mas também é verdade quem em São Paulo a situação é diferente da do resto do país. Sempre foi e, pelo visto, continuará sendo.

Mas o governo pode, sim, encontrar fórmulas se estiver disposto a ter uma política vigorosa de comunicação. E, para falar a verdade, acho que já começa a se preocupar com isso. Ano eleitoral faz milagre no desejo dos políticos de entrarem em sintonia com o povo.

Um bom sinal, porém, foi a reação do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, à tentativa da mídia e do PSDB de jogarem no seu colo a culpa pela roubalheira dos trens em São Paulo. Foi uma reação forte e que fez os tucanos e a mídia baixarem a bola.

Foi na medida certa.

Contudo, a militância petista tem que sair do choque que se produziu a partir do linchamento dos condenados do mensalão e começar a entender que não se pode reagir com intolerância a críticas, pois não existe governo perfeito, partido perfeito ou um único ser vivo perfeito.

Essa postura da base do petismo, porém, reflete problemas de liderança da cúpula, ainda que esta pareça estar encontrando um caminho.

A militância, pois, tem que se preparar para, ano que vem, discutir com paciência as queixas sinceras que possam surgir. Será um trabalho de formiguinha. Muitas vezes, se se conversar pacientemente com alguém que tem uma ideia pré-concebida é possível fazê-lo ver os fatos pelo ângulo correto – contanto, é claro, que exista tal ângulo a ser mostrado.

Estamos, pois, chegando a uma encruzilhada. O caminho que o PT escolher e que precisará ser indicado às suas bases terá que primar por uma sintonia fina do enfrentamento do debate político.

Se o cidadão comum sentir que é possível dialogar com o PT em relação às suas queixas, sentirá confiança em que o partido, se eleger de novo o governo, irá levá-lo a sério. Por outro lado, se a cúpula do PT abandonar a militância à própria sorte, provocará um desânimo fatal.

Ataques descabidos como sofreu recentemente o prefeito Fernando Haddad têm que ser rebatidos com dureza e com a indignação dos justos. Calar ante tais ataques confiando em que a economia tudo proverá será um erro fatal de avaliação.

Por fim, peço desculpas se estiver parecendo que tenho a fórmula da Coca-Cola da comunicação. Ninguém tem essa fórmula. Se alguém tiver, ficará muito rico. Mas certas fórmulas não precisam se igualar à do refrigerante hegemônico no mundo para vingar.

Um primeiro passo para achar tais fórmulas é sempre ouvir, pesquisar fundo sobre o que se ouviu e nunca, jamais, deixar que cresçam problemas detectados. Afinal, quando você for ver descobrirá que  cresceram tanto que já não são mais problemas, mas tragédias.

Tags: , , , ,

116 Comentário

  1. Olá Eduardo.

    Acompanho os seus textos e gostaria de contribuir com um exemplo recente de excelente estratégia de comunicação por parte da prefeitura de São Paulo, mas que não chega a grande mídia, embora atinja de forma direta a população.

    Acredito que seja uma boa forma de explicar as políticas da gestão Haddad à população, principalmente aquela que se beneficiará com tais medidas. O exemplo a seguir deve ter tido forte participação da empresa de ônibus Sambaíba em sua organização.

    No fim de novembro foram “inauguradas” as novas linhas de ônibus 209P – Cachoeirinha – Term. Pinheiros e 2013 Cohab Antártica – Cachoeirinha. Nada demais para uma cidade que possui 1300 linhas de ônibus. A diferença foi na forma como a “inauguração” foi realizada, com fogos de artifício e distribuição de bolachas, além das várias placas e panfletos informativos. A linha 209P conta com novos veículos chamados de superarticulados, confortáveis e modernos.

    Até esta data, o percurso era coberto pela linha 117Y – Cohab Antártica – Pinheiros, da cooperativa Fênix. Linhas de cooperativa, em São Paulo, tiveram origem com os lotações e as linhas Bairro-a-bairro. Estas linhas não eram realizadas pelas empresas de ônibus contratadas, ainda na década de 90, devido ao tipo de remuneração que recebiam da Prefeitura – Gestão Maluf/ Pitta, o que causou a explosão das linhas clandestinas.

    Essas linhas clandestinas ligavam pontos de interesse para a população e que não eram atendidos pelo transporte municipal, pelo menos de forma direta. Na gestão Marta essas linhas foram incluídas no sistema, mas parte delas ainda sofre com o longo itinerário, como é o caso da 213C que liga o extremo do Itaim Paulista a divisa com São Caetano do Sul, passando por São Miguel, Itaquera, São Mateus e Sapopemba. Pelo menos 3h de viagem.

    Quem usa ônibus em São Paulo prefere ir sentado numa viagem longa do que em pé numa viagem rápida, mesmo que para isso seja necessário realizar viagens “negativas”, acordar 1h antes do necessário, esperar 3 a 4 ônibus para ir sentado ou atravessar longos percursos pelos vários bairros paulistanos. É seguindo essa lógica individual que se torna um problema mexer nas linhas de ônibus de São Paulo, muitas delas criadas na década de 70 e 80 e que ainda seguem esse perfil. Infelizmente, numa cidade com 12 milhões de habitantes é impossível atender perfeitamente a todos os deslocamentos de toda a população, sendo necessária a “abominável” integração/baldeação.

    Atualmente, todos os especialistas em transportes concordam com os sistemas de linhas estruturais e locais, com integração em terminais ou estações de transferência. E foi na gestão Marta que a ideia foi trazida para São Paulo. Daí a construção dos corredores, dos terminais e da implantação do Bilhete Único. Ela conseguiu mexer bastante com a configuração das linhas, mas sempre muito criticada (veja o caso da linha 8686 e da inauguração do Terminal Pirituba). Haddad desenterrou a mesma ideia, e começou a mexer novamente com o transporte de São Paulo.

    Só que mexer com linhas de ônibus em São Paulo é mexer num vespeiro. É necessário mudar a configuração das linhas para que as viagens se tornam mais rápidas, mas a população sempre vai preferir ter uma linha de ônibus porta-a-porta. Com a linha 209P não seria diferente.

    Foi realizada a troca dos veículos, alguns com Wi-fi inclusive, uma ampla divulgação, a construção da nova estação de transferência, fogos, bolachas etc e a população acatou a mudança que vem apresentando excelentes resultados.

    Algo semelhante ocorreu com a criação da linha 4310 Est. Transf. Itaquera – T. P. D. Pedro II, além das grandes mudanças da zona leste ocasionadas pelo descredenciamento da empresa Itaquera Brasil.

    São exemplos de um contato direto com a população, sem mediação da grande mídia e que vem trazendo bons resultados.

    Espero contribuir com o debate.

    Abraço.

Trackbacks

  1. Só o PT pode eleger ou derrotar o PT | EVS NOTÍCIAS.

Leave a Response

Please note: comment moderation is enabled and may delay your comment. There is no need to resubmit your comment.