Vá se tratar, candidato Serra!

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Leia manifesto que será enviado ao candidato do PSDB a prefeito de SP, José Serra. Se você concordar com seus termos, deixe comentário de apoio

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Senhor José Serra,

Quem lhe escreve não é só o signatário deste manifesto, mas a maioria de um povo que o elegeu prefeito de São Paulo em 2004 e que, em 2008, atendeu indicação sua e votou em Gilberto Kassab. Trata-se de uma maioria de 52% do eleitorado paulistano que, em recente pesquisa do instituto Datafolha, diz que não repetiria aqueles votos “de jeito nenhum”.

O senhor deve – ou deveria – ter ficado surpreso com essa pesquisa. Afinal, por que kassab, o prefeito que os paulistanos rejeitam, tem “só” 42% de rejeição e o senhor tem 52%?

A sua rejeição, candidato, cresce mais do que a do governante que São Paulo não suporta mais porque este ao menos fica de boca fechada, enquanto que o senhor aparece todo dia na televisão exaltando uma administração sobre a qual a opinião da maioria dos paulistanos ficou evidente na pesquisa em questão.

Claro, candidato, que o senhor dirá que sou apenas um “petista” e me mandará “para o Haddad”, assim como tem feito com tantos jornalistas e repórteres os quais, à menor pergunta incômoda, o senhor destrata e humilha. E, mais claro ainda, dirá que se alguém que o rejeita como eu lhe dá um conselho, este deve ser seguido ao contrário.

Engana-se, senhor candidato. O senhor deveria me ouvir. Digo-lhe, com pureza d’alma, que, para quem não quer que o senhor vença a eleição, sua conduta truculenta e mal-educada é bem-vinda, pois com ela a sua imagem se deteriora a cada dia. Todavia, tal conduta, ainda que suicida, esbofeteia São Paulo.

De sábado para cá, senhor Serra, tomei metrô duas vezes. A seguir, relato a diferença de sua propaganda para a vida real.

Na primeira, a composição chegou à estação “rateando”, aos solavancos, bem devagar. Os passageiros entraram nos vagões lotados, um calor desgraçado, ar-condicionado defeituoso. O condutor fechou as portas e o trem continuou parado. Minutos depois, seguiu viagem até a estação seguinte, quando o condutor, pelo alto-falante, mandou todo mundo descer.

Naquele momento, candidato, centenas de pessoas saíram protestando, ouviam-se gritos de “olha a propaganda do Serra aí, gente!”.

Na segunda viagem de metrô de sábado para cá, agora em horário de pico, após esperar a passagem de QUATRO trens, consigo embarcar. O mesmo calor, o mesmo ar-condicionado quebrado ou insuficiente. Uma senhora passa mal. Mais protestos. Novamente ouvem-se gritos sobre a sua propaganda que mostra um metrô que ninguém jamais viu.

Na região da Avenida Paulista, não se consegue andar cem metros sem ser abordado por um pedinte – em geral, crianças – ou sem tropeçar em algum morador de rua desfalecido no chão, seja por drogas, seja por álcool, seja pelo torpor de problemas mentais.

Nos semáforos, crianças ou esmolam ou tentam roubar os motoristas. São milhares de crianças abandonadas por toda cidade. Famílias inteiras dormindo ao relento. Favelas surgindo em qualquer terreno, inclusive nos bairros para os quais o senhor dá prioridade, os bairros ditos “nobres”.

Na extremidade Sul da avenida paulista, na avenida Bernardino de Campos, ao lado da igreja de Santa Generosa, surgiu uma favela onde, antes, era um estacionamento. As famílias vivem lá sem água encanada, sem luz, sem esgoto, em uma situação horrorosa. Já aparecem por lá tipos mal-encarados em conduta suspeita.

Dia desses, crianças desse “acampamento” começaram a tentar assaltar motoristas no semáforo da esquina, abertamente. Crianças pequenas, adolescentes, candidato…

Na madrugada de sábado para domingo, ainda no Paraíso, durante a madrugada, um tiroteio, gritos, sirenes, correria.

Poderia dizer da Saúde, da Educação, de tudo mais que está em estado de miséria na capital paulista, mas estaria chovendo no molhado.

A quase totalidade dos paulistanos sabe do desastre em curso na cidade, à exceção do senhor mesmo e de uma parcela do eleitorado que não raciocina porque se deixou engabelar por sua estratégia de ficar citando “mensalão” e José Dirceu em vez de nos dar alguma satisfação sobre tudo isso.

O senhor, candidato Serra, poderia ter a decência de parar de ficar falando em assuntos que nada têm que ver com a administração de São Paulo, como o julgamento do mensalão e o ex-ministro José Dirceu, e se ater ao que nos interessa, aos paulistanos, que é a administração da cidade. Até porque, todos já perceberam que sua conduta não passa de escapismo.

Não, não tenho esperança de que o senhor venha a se sensibilizar com este apelo para que adote uma conduta menos acintosa ao povo que o elegeu tantas vezes, mas tenho certeza de que, ao lhe escrever este texto, expresso opinião majoritária de uma cidade que está sendo reiteradamente esbofeteada por suas estratégias políticas.

A rejeição de que o senhor padece, repito, é maior do que a de seu preposto, Kassab, porque o senhor fala mais do que ele, que não dá satisfação a ninguém, e trata as queixas como se fossem produto de falta do que fazer. A campanha vai terminando sem que o senhor tenha reconhecido um único problema, limitando-se a exaltar o que a maioria diz que está péssimo.

Além disso, candidato, venho fazer outro apelo. Este, de cunho pessoal. Peço para que procure ajuda psicológica. Digo isso após ouvir resposta que o senhor deu em entrevista à rádio CBN, quando, perguntando sobre como combater violência nas escolas, disse que pretende identificar, entre incontáveis milhares de estudantes, os que possuam “potencial criminoso”.

Candidato, estamos falando de crianças e adolescentes que, mais do que autores, são vítimas da violência. A sua proposta, candidato, a exemplo de tantas outras, é uma sandice – na verdade, parece produto de sério desequilíbrio mental.

Como o senhor irá identificar “potencial criminoso” entre os alunos da rede municipal de ensino? Pela cor da pele? Pelo vestuário? E, uma vez identificado o “criminoso em potencial”, como o senhor irá tratá-lo? Aliás, uma pergunta: a ciência já descobriu como detectar “potencial criminoso” em milhares e milhares de crianças e adolescentes?

Certamente, candidato, ainda não é possível fazer o senhor entender que sua obsessão com “mensalão” e José Dirceu não lhe trará votos entre uma população que pede propostas para melhorar o que o senhor mesmo fez piorar. Todavia, depois que São Paulo chutar o seu traseiro no próximo domingo, sugiro que reconsidere a sugestão de ir se tratar.

Atenciosamente,

Eduardo Guimarães