Diminuir a corrupção na política é moleza, mas ninguém quer

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Mais uma vez, o país assiste a um escândalo de corrupção desalentador porque insinua que em toda parte do espectro político há gente com o rabo preso. Políticos adversários se defendem mutuamente de acusações de corrupção. Corporativismo? Pode ser. Mas por que é tão difícil o Congresso aprovar uma CPI da Privataria ou essa, agora, do Senador Cachoeira?

Porque há atores de todos os partidos mais importantes envolvidos, o que não pode ser tomado como culpa das agremiações mas denota um apodrecimento do nosso sistema político. Quando escroques como um Carlinhos Cachoeira ou um Marcos Valério transitam do PSDB ao PT com toda a desenvoltura que se viu da década passada para cá, algo está muito podre.

De onde vem tudo isso? Simples: do financiamento privado de campanhas eleitorais. É aí que interesses privados conseguem se fazer representar. É aí que as grandes corporações conseguem ferrar o consumidor. É aí que uma igreja picareta consegue se transformar em uma das bancadas mais fortes do Congresso.

Por que um banco dá dezenas de milhões de reais a campanhas eleitorais? Patriotismo? Como verdadeiras organizações criminosas conseguem fundar partidos políticos e influírem e negociarem leis ou impedirem investigações incômodas?

Como os políticos precisam de dinheiro para se eleger, de quantidades astronômicas dele, grupos que têm sobrando aquilo de que precisam financiam-nos e, assim, sempre terão, no mínimo, que ser ouvidos, apesar de, frequentemente, só representarem meia dúzia de empresários.

Demóstenes Torres e José Roberto Arruda, por exemplo – e não me venham falar de políticos que não têm contra si uma fração daquilo que há contra esses dois. Como chegariam aonde chegaram sem que escroques os financiassem?

É óbvio que a proibição expressa de dinheiro privado em campanhas eleitorais e o estabelecimento de um teto para financiamento delas – que, sem dúvida, seria respeitado porque candidatos adversários fiscalizariam um ao outro –, seria a solução. Todavia, os detentores de enorme poderio financeiro deixariam de manipular o Estado brasileiro.

É por isso que nenhum grupo de mídia põe discussão como essa em pauta, assim como todos impedem a discussão de uma legislação para a comunicação que existe em todos os países mais desenvolvidos.

Imagine, leitor, se os planos de saúde ou as empresas de telefonia conseguiriam abusar da sociedade como abusam se não colocassem suas bancadas no Legislativo para bloquearem medidas de proteção ao consumidor que não aprovar é um escândalo, mas que não são aprovadas porque esses grupos de interesse têm milícias de parlamentares para defendê-los.

Imagine, leitor, uma campanha em que os candidatos de todos os partidos disputassem em estrito pé de igualdade, sem que os mais ricos atraíssem público com trios elétricos e outras baboseiras financiadas por grupos de interesse que obviamente quererão ressarcimento do eleito.

É por isso que, nos países mais desenvolvidos – quase todos da Europa, mas também da Ásia –, o financiamento é público. Nem misto pode ser. Precisa ser estritamente público.

Todavia, os grupos de interesse, usando a mídia, conseguem fazer valer o mesmo estratagema que os americanos criaram, de tachar o financiamento público como doação do cidadão ao político, a qualquer político, falácia que esconde que quando não é o dinheiro público que financia as campanhas é o grande capital privado que vence a eleição.

Tem muito classe média, por aí, que acha que o seu lado é o lado do grande capital. Esse tonto já deve ter sido estafado pelo seu plano de saúde ou pela sua operadora de telefonia. E muito mais.

Então, meu caro companheiro leitor, o fato é que a corrupção na política poderia ser drasticamente reduzida, do dia para a noite, mas é a minoria da minoria da classe política que aceita sequer discutir o assunto. E, assim mesmo, boa parte desse grupo prega sistema misto (financiamentos público e privado misturados), o que não muda nada.

Enquanto o atual sistema de financiamento da democracia perdurar, estaremos condenados a ficar nos escandalizando o tempo todo com a ousadia que a promiscuidade entre o capital privado e o sistema eleitoral gera. A corrupção política é uma opção que fez esta sociedade.

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110 Comentário

  1. Eu tenho um certo ceticismo com relação ao financiamento público das campanhas.
    Nosso sistema judiciário e nosso conjunto de leis, só garantem que cidadãos comuns tenham que obedecê-las. Quando GRANDES interesses estão em jogo, o sistema não funciona corretamente. Existem brechas e artifícios, diuturnamente explorados, permitindo que a ilegalidade fique blindada.
    O que GARANTE que os grupos privados não adicionem às verbas públicas, quantias vultuosas (ilegais) para as campanhas de seus vassalos?
    Quando houvessem indícios de injeção de dinheiro ilegal (privado) em uma campanha, quem iria intervir? Gilmar Dantas, Gurgel, Marco Aurélio Mello, DEMOstenes, Alvaro Botox, …?
    Oficialmente todos teriam os mesmos recursos financeiros para suas campanhas, mas na vida real, haveriam grandes disparidades, e não haveriam punições quer inibissem o financiamento ilícito.

    • Calma.N seria a perfeição,mas um avanço -e como!Os próprios candidatos (as vezes do mesmo grupo) se encarregariam de um ‘matar o outro’ caso percebessem estarem sendo colocado p’ra trás.Se todas campanhas téem “tetos” -àquelas q se mostrassem mais,por assim dizer,’pomposinhas’,chamariam logo a atenção…Qto mais cara,atualmente,a campanha no Brasil,pior p/ nós todos…Talvez a falácia de financiamento privado,dê certo lá nos eua (e n dá!),q tém uma cultura meio q gerencial;por aqui,s/ tradição democrática,é o nosso fim.

    • Concordo em parte com sua exposição. No meu entender tudo começa errado à partir da Constituinte: momento importante para a elaboração de leis. Entretanto, até mesmo nesse momento ocorre a predominância de interesse de grupos que operam para o “amarramento” das normas que hoje regem as leis deste país. Uma excrescência, para mim, é a formação do poder judiciário – não deveria haver o absurdo da indicação e a inaceitável vitaliciedade – magistrados deveriam ter um único mandato. Falo nesse poder, porque é dele que se espera a justiça, o conserto do que está errado ou ilegal. Mas como? os membros desse poder, em função dos privilégios que as leis lhe conferem, acabam por se acharem deuses… e não conseguem mais ver nada além dos próprios interesses. Daí surgem políticos corruptos, gestores irresponsáveis e nenhum corruptor é denunciado para pagar por seus crimes.

  2. Será que dá para instalar uma UPP no congresso para acabar com a bandidagem.

  3. Clube Militar a “Casa da Intolerância da República” vai comemorar a Ditadura: a tortura, o entreguismo, o autoritarismo, a falta de vergonha na cara !!!
    qui a página do email do Military Club: vamos mandar pros generais de pijama um recadinho, gente !
    http://clubemilitar.com.br/fale-conosco/

    http://ochacalnarede.blogspot.com/2012/03/clube-militar-casa-da-intolerancia-da.html

  4. O apoiador classe média, amante do PIG, do liberalismo e das liberdades individuais, além das empresas de telefonia e de saúde privada, é escalpado também pelos bancos, financeiras e empresas de diversos tipos e ainda põem a culpa na própria incompetência de subir na vida.

  5. Esse seu post foi um dos mais didáticos que já vi sobre o assunto, vindo de você ou de outros.

    “É óbvio que a proibição expressa de dinheiro privado em campanhas eleitorais e o estabelecimento de um teto para financiamento delas – que, sem dúvida, seria respeitado porque candidatos adversários fiscalizariam um ao outro –, seria a solução. Todavia, os detentores de enorme poderio financeiro deixariam de manipular o Estado brasileiro.”

    Brilhante!

    Só não acho que conseguíssemos de forma tão simples assim, sem que a própria imprensa também fosse faxinada de suas ambições escusas .

    Veja uma entrevista com José Agripino no Estadão( Rádio) e escute a gentileza dos entrevistadores e a disfarçatez do entrevistado para entender essa minha opinião.

    Gosto do que você escreve porque tem sentimento e nos dá esperança ou desesperança, conforme o caso. Nos ajuda a manter a emoção do jogo político.

    Mas, o nosso Povo ainda precisa entender que existir corrupção não é ônus obrigatório da democracia e que ela não está só de um lado.

  6. Eduardo,
    esse problema da corrupção no país é muito grave! É um problema endêmico! Lógico que tem muitos brasileiros honestos e que em qualquer lugar do Mundo tem gente corrupta. Mas o que muda praticamente é a quantidade de dinheiro necessário para corromper alguém, ou a quantidade de dinheiro que a pessoa rouba. Enquanto o policial corrupto aceita X o político corrupto aceita 100X. Uma outra diferença é que o pobre vai para a cadeia e o rico fica em liberdade. O problema ético é muito sério, basta vermos as pessoas que estão a nosso redor. Muita gente só quer levar vantagem em tudo, “se dar bem”. Os políticos são o topo da pirâmide. Só teremos políticos honestos quando os cidadãos forem honestos. Eles são homens e não ETs.
    Concordo que o financiamento de campanha deveria ser totalmente público e que o corruptor deveria ser tão punido quanto quem se deixou corromper.
    Mas a corrupção só vai acabar quando os homens melhorarem, evoluírem!
    Forte abraço!

  7. Estou de pleno acordo, pq já dizia o velho ditado: “Quem dá o pão, dá a instrução”. O financiamento privado elege parlamentares que vão defender os interesses do financiador de sua campanha. O que eu não adimito de forma alguma é o financiamento mixto. Aí de nada adiantará.

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