Todos terão voz

Buzz This
Post to Google Buzz
Bookmark this on Delicious
Bookmark this on Digg
Share on FriendFeed
Share on Facebook
Share on LinkedIn

Havia que optar entre dois belos assuntos. Um deles com menor poder de atração de leitores, mas, certamente, de muito maior importância.  Versaria – ou versará – sobre um dos maiores problemas de saúde e de segurança públicas, as drogas. O outro assunto, bem, é aquele mesmo ao qual, tragicamente, tem se resumido este blog: as mentiras da grande imprensa.

Entre os estudiosos do novo jornalismo que viceja no Brasil e no mundo – que, cada vez mais, vai abrindo espaço para o que se convencionou chamar de “jornalismo-cidadão” –, muitos acreditam que a chave para combater o jornalismo industrial e suas mazelas, entre as quais se destaca a mentira compulsiva, é a produção de conteúdo, ou seja, de “furos” jornalísticos.

Sobram reservas quanto ao peso do jornalismo noticioso em um país em que o que mais se vê na imprensa industrial é opinião e o que menos há, é informação. Com efeito, o principal papel do jornalismo-cidadão, como é o da blogosfera atualmente, é o desmonte do “opinionismo” da grande imprensa, que, repetindo pela terceira vez, não se limita a opinar e desanda a mentir.

Os três parágrafos anteriores afirmam que o jornalismo industrial mente. No quarto, portanto, há que começar a provar. E, para isso, nada melhor do que duas das colunas de maior evidência dessa grande – ou velha? – imprensa, as dos colunistas da Folha de São Paulo Eliane Cantanhêde e Carlos Heitor Cony. E, para não cansar o leitor, reproduzo só o que interessa:

— “O procurador da República, Roberto Gurgel, primeiro disse que não havia o que apurar e depois encaminhou umas perguntas para Palocci”. Eliane Cantanhêde, Folha de São Paulo, 24 de maio de 2011.

— “Temos a ameaça de uma inflação que um entendido por aí já estimou em dois dígitos até o final do ano”. Carlos Heitor Cony, Folha de São Paulo, 24 de maio de 2011.

Enfim, é a isso que a blogosfera progressista tem se resumido desde a sua gênese, há uns pares de anos, a fornecer a contra-informação, ou melhor, a contra-opinião, o contraditório, e a desmascarar essas mentiras grosseiras que, antes da internet, viravam verdade e se espalhavam de boca em boca, ou de ouvido em ouvido.

Sobre a mentira de Cantanhêde, ela tenta vender que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, mudou de idéia sobre os indícios de culpabilidade do ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, quando, na verdade, o que houve foi um procedimento padrão do Ministério Público.

Gurgel de fato enviou a Palocci uma intimação para que ele responda a acusações, mas não foi por iniciativa sua ou da instituição em que trabalha e, sim, em cumprimento ao rito processual do Ministério Público de avisar representados da ação movida contra eles e lhes oferecer a oportunidade de replicar as representações.

E quem representou contra Palocci no MPF foi a oposição demo-tucana e não o procurador-geral da República. Dessa maneira, assim como a Procuradoria intimou os institutos de pesquisa no ano passado, avisando-os de que a ONG Movimento dos Sem Mídia representara contra eles, Gurgel fez o mesmo em relação a Palocci.

Já no caso de Cony, há que falar menos. Aliás, o que parece mentira dele pode ser apenas desinformação. Mas, meu Deus!, o sujeito escreve no espaço mais “nobre” daquele veículo de comunicação. O que se publica ali é lido por centenas de milhares de pessoas. No mínimo, quem lá escreve tem que saber o que diz…

Não há um único “entendido” em economia que tenha previsto inflação de dois dígitos (acima de 10%) “até o fim do ano”. O máximo que diziam era que a inflação poderia ultrapassar o teto da meta, de 6,5%. Tal afirmação é delírio ou mentira grosseira – que o leitor escolha o que acha que é. Todos os “entendidos” já vêem queda nos índices, apesar dos Conys da vida.

Pelo menos Cantanhêde sabe que está mentindo. Mas os dois colunistas da Folha ainda pensam que o que escrevem em papel-jornal e que vai parar na internet continua não podendo ser contestado por falta de voz de quem discorda. Para concluir o texto, quero provar ao leitor que não é bem assim.

Em primeiro lugar, vamos nos concentrar no perfil de quem lê jornal impresso hoje. Alguns preferem, ainda, sentar para desjejuar, pela manhã, enquanto lêem as notícias do dia. A grande maioria, a esmagadora maioria, porém, já vira tais notícias na internet no dia anterior, pois quem se interessa em ler sobre política, economia etc., certamente usa internet.

Sim, há os que não usam, mas esses são os mais idosos, são minoria da minoria e vivem, em maioria, fora dos centros urbanos. A grande maioria dos leitores de jornal acessa a internet pelas mesmas razões que lê jornal, seja do trabalho ou de casa mesmo.

Agora vos oferecerei a prova de que, nessa situação de igualdade entre internet e jornal impresso, um comerciante sem formação jornalística que um dia decidiu criar um blog para desabafar mesmo que ninguém lesse pode se contrapor a impérios de comunicação em pé de igualdade.

Na imagem abaixo vocês vêem impressão da tela do computador após buscar no Google a palavra “Palocci”. A busca retornou mais de 2 milhões de resultados – tudo que há na internet contendo essa palavra. Vejam, na primeira página da busca, em que posição estava post deste blog sobre Palocci no meio da noite de ontem – hoje, caiu do quinto para o oitavo lugar.

Tags: , , , , , , , , , ,

115 Comentário

  1. Edu e Blognautas: vejam que belo artigo:

    FALSO HUMOR

    ZUENIR VENTURA

    Riso e preconceito

    Pelo menos dois colunistas chamaram a atenção para o fato. “Já virou moda”, escreveu André Barcinski, “o artista ou celebridade falar uma besteira em entrevistas, no Twitter ou no Facebook, e depois voltar para se desculpar”. O seu colega da “Folha de S.Paulo” Marcelo Coelho explica: “Ser politicamente incorreto, no Brasil de hoje, é motivo de orgulho. Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer ‘incorreto’ — e com isso se vê autorizado a abrir seu destampatório contra as mulheres, os gays, os negros, os índios e quem mais ele conseguir.”
    Isso veio a propósito das declarações do diretor Lars Von Trier, que em Cannes se confessou simpatizante de Hitler e admitiu ser nazista. Diante dos protestos, correu para se justificar. “Me arrependo. Foi uma brincadeira estúpida.”
    Aqui houve casos semelhantes. O cantor Ed Motta exaltou no seu perfil do Facebook o Sul do Brasil: “Como é bom, tem dignidade isso aqui. Frutas vermelhas, clima frio, gente bonita. Sim, porque ôôô povo feio o brasileiro”, exclamou, talvez se olhando no espelho. Depois, apressou-se em dizer que fora mal compreendido. Mais grave foi o que se fez em nome do humor. O comediante Rafinha Bastos declarou em um show que toda mulher que reclama de estupro é feia: “Deveria dar graças a Deus (…). Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço.”
    Outro artista do programa “CQC”, Danilo Gentili, preferiu apontar para as vítimas do Holocausto. Comentando o abaixo-assinado contra uma estação de metrô, tuitou: “Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz” (no bairro moram muitos judeus). A exemplo de Rafinha, Gentili arrependeu-se e foi à Confederação Israelita se desculpar.
    Será que não se pode fazer piada com temas polêmicos? Claro que sim. Barcinski cita vários exemplos, entre os quais um texto clássico do comediante Redd Foxx sobre anões, sem falar em Woody Allen com seu olhar crítico sobre judeus.
    No Brasil, um dos livros mais engraçados no gênero é “As melhores piadas do humor judaico”, de Abram Zylbersztajn. Algumas são atrevidas, nenhuma preconceituosa e todas hilárias.
    O problema é que quando ofende, em vez de fazer rir, o politicamente incorreto é tão sem graça quanto o seu contrário.
    As desculpas atenuam a agressão, mas não escondem a discriminação que se disfarça atrás do falso humor. Nesses atos falhos, o autor deixa escapar inconscientemente a manifestação do que está reprimido: o preconceito.
    Passei o sábado tentando explicar sem sucesso como confundi dois pares de fartos seios parecidos, mas separados no tempo. Em outras palavras: a mãe de Mariska, a Olivia de “Law & Order”, é Jayne Mansfield e não Mae West, como publiquei.

    Publicado no Globo de hoje (26-05)

Trackbacks

  1. Todos terão voz | Blog da Cidadania | Veja, Brasil
  2. Todos terão voz | Blog da Cidadania | Veja, Brasil
  3. Todos terão voz | Blog da Cidadania | Vivo Media Group
  4. Todos terão voz | Blog da Cidadania | Olha Brasil
  5. Todos terão voz | Blog da Cidadania | Jornal do Brasil

Leave a Response

Please note: comment moderation is enabled and may delay your comment. There is no need to resubmit your comment.