Bolsonaro e clubes militares são faces da mesma moeda

Os clubes militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica divulgaram, na tarde da última segunda-feira, nota conjunta para lembrar os 47 anos do movimento ilegal que derrubou do poder o presidente João Goulart por meio de golpe de Estado e que deu início ao regime militar, que durou até 1985, portanto mais de 20 anos.

A nota em questão foi mais uma da série de atos iguais que esbofeteiam a nação periodicamente ao exaltarem o regime criminoso que afundou o país, matou, torturou e roubou desbragadamente sem que ninguém pudesse dizer uma vírgula. Leiam essa peça patética, abaixo, que, em seguida, sigo comentando:

Há quarenta e sete anos, nesta data, respondendo aos reclamos da opinião pública nacional, as Forças Armadas Brasileiras insurgiram-se contra um estado de coisas patrocinado e incentivado pelo Governo, no qual se identificava o inequívoco propósito de estabelecer no País um regime ditatorial comunista, atrelado a ideologias antagônicas ao modo de ser do brasileiro.

À baderna, espraiada por todo o território nacional, associavam-se autoridades governamentais entre as quais Comandantes Militares que procuravam conduzir seus subordinados à indisciplina e ao desrespeito aos mínimos padrões da hierarquia.

A história, registrada na imprensa escrita e falada da época, é implacável em relatar os fatos, todos inadmissíveis em um País democraticamente organizado, regido por Leis e entregue a Poderes escolhidos livremente pelo seu povo.

Por maiores que sejam alguns esforços para “criar” uma história diferente da real, os acontecimentos registrados na memória dos cidadãos de bem e transmitidos aos seus sucessores são indeléveis, até porque são mera repetição de acontecimentos similares registrado pela história em outros países.

Relembrá-los, sem ódio ou rancor, é, no mínimo, uma obrigação em honra daqueles que, sem visar qualquer benefício em favor próprio, expuseram suas carreiras militares e até mesmo suas próprias vidas em defesa da democracia que hoje desfrutamos.

Os Clubes Militares, parte integrante da reação demandada pelo povo brasileiro em 1964, homenageiam, nesta data os integrantes das Forças Armadas da época que, com sua pronta ação, impediram a tomada do poder e sua entrega a um regime ditatorial indesejado pela Nação Brasileira.

Novamente, um ato de insubordinação de militares contra um presidente apesar de que, nas democracias, presidentes são os comandantes-em-chefe das Forças Armadas. Os militares que divulgaram nota exaltando a ditadura militar deveriam ser presos por insubordinação, se a lei fosse cumprida em relação a esses que chantageiam a nação com ameaça de romperem de novo a ordem institucional se forem disciplinados.

A nota dos militares mente desbragadamente. Afirma que o golpe foi dado devido à vontade do povo, o que é uma mentira facilmente identificável porque, se o povo não apoiava mais o governo que elegera – do qual Jango Goulart era o representante –, bastava esperar a eleição seguinte.

A nota ainda diz que Jango pretendia instalar uma ditadura comunista. Outra mentira. Não havia nenhum exército sendo formado para isso. Não havia como enfrentar as Forças Armadas para romper a ordem constitucional. Só havia planos de uma reforma agrária ainda mais tímida do que a de hoje e a legítima ideologia de Jango.

Aliás, surgiu fortuitamente o melhor exemplo de quão energúmenos são esses fantasmas da ditadura que vivem assombrando o país: as declarações racistas, homofóbicas e criminosas que o deputado fascista Jair Bolsonaro, do PP fluminense, proferiu na TV no mesmo dia da nota insubordinada dos clubes militares, usando a imunidade parlamentar para delinqüir.

Entre outras barbaridades, Bolsonaro disse estas:

Que se “pegasse” um filho fumando maconha, o torturaria. E que nem lhe passa pela cabeça a hipótese de ter um filho gay porque deu aos seus filhos “uma boa educação”, dizendo-se um pai “presente”;

Questionado sobre cotas raciais, disse: “Eu não entraria em um avião pilotado por um cotista nem aceitaria ser operado por um médico cotista”;

Insultou a cantora Preta Gil, filha de Gilberto Gil, quando ela lhe perguntou o que faria se o filho se apaixonasse por uma negra. As palavras de Bolsonaro “Ô Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu”.

A conclusão que se tira de tudo isso é a de que oficiais militares acham que podem cometer crime de racismo, insubordinarem-se contra a presidenta da República, enfim, violarem as leis e afrontarem a sociedade sob proteção de ameaças veladas que fazem de nova ruptura institucional. Essa é a leitura que salta aos olhos, nesses episódios.

Bolsonaro e a verborragia espúria desses clubes militares constituem o melhor símbolo do regime criminoso de 1964. Quando militares dizem que estão preocupados com a nova novela do SBT, que versará sobre a ditadura militar, porque a obra os difamaria, deveriam refletir que ninguém consegue difamá-los mais do que eles mesmos.

Abaixo, o vídeo dos crimes de Bolsonaro

Tags: , , , , , ,

121 Comentário

  1. Em 1986, foi processado por ser indígno ao oficialato já como Capitão. Também o colega seu Capitão planejaram jogar bombas em postos de gasolinas e outros métodos em logradouros públicos do Rio de Janeiro. Tudo confessado em entrevista a uma jornalista da revista Veja da época publicadas em duas edições seguidas, com o croqui desenhado por ambos e suas caligrafias. Não foram expulsos a bem da disciplina, porque o processo foi magnânimo com os dois Capitães à semelhança do também Capitão da bomba do Rio Centro. A diferença é que o Capitão do Rio Centro foi absolvido e chegou a Coronel na Carreira, enquanto o Capitão Bolsonaro e seu colega também Capitão foram pra inatividades nos postos de Capitães ( não lembro se seus salários estão sendo pagos por quotas, ou seja, sòmente o tempo de serviço que ambos permaneceram na ativa).

  2. ÊSTE FACÍNORA,TEM QUE SAIR DE CENA,ÊLE É VOTADO NO RJ.PELOS DE” PIJAMA” E AS NOSSOS FORÇAS ARMADAS PRECISAM SER URGENTIMENTE OXIGENADAS DE DEMOCRACIA OS NOSSOS OFICIAIS DE HOJE NÃO TEM NADA A VER COM AS QUARTELADAS DO PASSADO

  3. Acho também muito lamentável o apresentador do CQC se referir ao negro como “pessoa de cor”. No minimo, um ato falho dele.

    • Um erro gritante aqui no brasil é chamar uma pessoa “preta de negra”. Observamos que até a própria cantora se auto intitula PRETA GIL!
      Citando o saudos Chico Anísio, êle tinha um personagem “Preto Velho” Painho e gozado, ninguém o processou por isso!?
      Em tempo: Cor é PRETA, situação é NEGRA!

  4. Jogo simulador militar, político e econômico.

    http://www.erepublik.com/en/referrer/Bohemias

  5. TRECHO DE CARTA DO DEPUTADO ESTADUAL PAULO RAMOS À PRESIDÊNCIA DA ALERJ:
    ( http://www.deputadopauloramos.com.br/?p=3319 )

    (…) E aí, marcada para hoje, quinta-feira, dia 9, uma assembleia geral na Cinelândia, mobilizando policiais civis e militares e bombeiros militares, sob a influência, queiramos ou não, do que vem acontecendo na Bahia – os policiais militares em greve ocupando a Assembleia Legislativa. Uma parcela ocupando a Assembleia Legislativa, e a parcela maior, que não ocupava, mas atividades paralisadas, no âmbito de todo o Estado. E aí, o Cabo Daciolo, que tem o direito de ir e vir, que não está obrigado por força de nenhum regulamento a comunicar que vai para qualquer outra unidade da Federação, só tem a obrigação de comunicar deslocamentos para fora do país, ele, que participou ativamente da luta em defesa da PEC 300, tendo interlocução com policiais militares e bombeiros militares de outras unidades da Federação, decidiu que tinha o direito de fazê-lo e ir à Bahia, e vai à Bahia. Vai lá para dizer da solidariedade em relação ao movimento. Trazer informações até acumular experiência.
    E aí, Sr. Presidente, vem a quebra do estado democrático de direito. Eu preciso saber qual foi o juiz, e com qual motivação quebrou o sigilo telefônico do cabo Daciolo. Quem pediu a quebra desse sigilo? Para investigar o quê? Isso significa que qualquer cidadão, mesmo que esteja no exercício do mandado, pode ter seu sigilo telefônico quebrado.
    Como explicar o fato de ter sido gravada uma conversa do cabo Daciolo com a Deputada Janira, como depois se tomou conhecimento? Como? Era o telefone da Deputada que estava grampeado? Que telefone estava grampeado e quem determinou a quebra do sigilo telefônico?
    Sr. Presidente, o Estado democrático de direito vai sendo atingido e aí vêm arbitrariedades sucessivas, como a que ocorreu na chegada do cabo Daciolo ao aeroporto. O cabo Daciolo, mesmo pelo que foi gravado, não cometeu nenhum ilícito, rigorosamente nada. Dizer que se a PEC 300 ou a PEC sucedânea for votada antes do Carnaval contribui para arrefecer os ânimos não é uma avaliação feita por todo mundo?…

  6. O General
    Um General é, antes de tudo, um solitário. Contrário ao soldado que na trincheira, na vacância ou no acampamento sempre tem um seu igual para compartilhar seus medos, angústias e sentimentos, o General come e dorme sozinho, trabalha sozinho e toma suas decisões na mais terrível e absoluta solidão. Não que o General não possa ter amigos e companheiros de caserna com os quais, em algum momento, possa fazer confidências ou cometer indiscrições, mas nas funções profissionais ninguém está ao seu lado na hora das decisões. Ninguém, no seu círculo íntimo, divide com ele a responsabilidade das boas e más escolhas, ninguém assume suas insônias, inseguranças e dúvidas.
    Mais que a solidão do cargo, ao General cabe decidir sobre a vida e a morte, de seus soldados e dos soldados inimigos. Se emana ordens corretas e judiciosas, os militares inimigos morrerão e, se suas ordens não forem as melhores, quem morre são seus comandados. Às vezes ele se sente uma perversa paródia de Deus, ou semi deus se considerarmos que é mortal como os que morrem na batalha. Mas ele sabe que se tornou General, não por determinação aleatória de carreira militar bem sucedida ou injunção cega do destino, e sim porque orientou toda sua vida para esse fim. Não se chega ao generalato por acaso, apenas suas lidas beiram o acaso quando para aquilo que se preparou, lhe cai no colo por decisão política, a guerra. E o generalato, antes de ser um alto posto militar, é um misto de sacerdócio e resultado de ilibada vida pessoal somada à luta e trabalho diários, muito estudo e disposição para o sacrifício ao longo de muitos anos. O general é um primata da espécie Homo estoicus.
    Um General sensato sabe que guerra é insensatez, mas sabe também que quando ela vier terá que exarar ordens claras e lúcidas cujos resultados beiram a insanidade. Quanto mais eficientes forem as decisões do General, mais os resultados podem conflitar com sua formação humana. Um General traz no âmago de sua formação profissional o germe do conflito entre os fatores morais que lhe foram incutidos pelo núcleo familiar e as imposições pretorianas subordinadas às nuances políticas de seu país. O General deve ser patriota na mais cruel e perfeita acepção do termo. A pátria lhe impõe encargos que pesam nos ombros como um Atlas suportando o globo terrestre.
    Por isso tudo, um bom General que tenha lutado por seu país, aquele que exerceu sua função com honestidade e eficácia, é um ser humano triste, suas memórias incluem mortes de pessoas desconhecidas as quais nunca lhe fizeram qualquer mal e que apenas estavam defendendo ideias ou orientações diferentes das suas. Suas convicções religiosas também devem ser elásticas quando são postas à prova: não matarás é um mandamento que deve ser temporariamente relegado se ele quiser ser um profissional seguro nas ações do ofício. Cada soldado que cai no campo de batalha tem um General responsável por sua morte, General sem mortes no currículo é General inerte, omisso. O pódio de General é árduo e às vezes lhe traz glórias e reconhecimento, e aquele que lá chega se torna para sempre um ser Primus inter pares, mas suas funções nem sempre são cobiçadas pelos mortais comuns. JAIR, Floripa, 01/08/12.

Trackbacks

  1. Bolsonaro | Advertising Information
  2. às vesperas de uma data: Pelo Esclarecimento histórico « Ficção e Não Ficção
  3. Será que nasci no país errado? « Cão Uivador
  4. Política: Às vesperas de uma data: Pelo Esclarecimento Histórico « Tony, O Conselheiro
  5. A tragédia de Realengo « Cão Uivador
  6. Será que nasci no país errado? | Cão Uivador

Leave a Response

Please note: comment moderation is enabled and may delay your comment. There is no need to resubmit your comment.