A vingança póstuma de Otavio Frias de Oliveira

Publicado, originalmente, em 20 de novembro de 2010 às 12:13

O homem fardado e a declaração na foto acima correspondem a Otávio Frias de Oliveira, o falecido fundador do jornal Folha de São Paulo. Imagem e palavras pertencem a momentos distintos de sua vida. Todavia, unidas explicam por que seu herdeiro Otavio Frias Filho, o “Otavinho”, foi resgatar em arquivos dos órgãos de repressão da ditadura militar as desculpas usadas por esta para prender e torturar Dilma Vana Rousseff, a presidente eleita do Brasil.

Frias de Oliveira lutou na Revolução Constitucionalista de 1932, que tentou dar um golpe de Estado contra Getúlio Vargas. Coerente com seu apreço pelo militarismo e pela derrubada de governos dos quais não gostava, apoiou o golpe militar de 1964. Nesse período, a Folha de São Paulo serviu de voz e pernas para os ditadores que se sucederiam no poder ao exaltá-los e ao transportar para eles seus presos políticos até os centros de tortura do regime.

No dia 21 de setembro de 1971, a Ação Libertadora Nacional (ALN) incendiou camionetes da Folha que eram utilizadas para entregar jornais. Os responsáveis acusavam o dono do jornal de emprestar os veículos para transporte de presos políticos. Frias de Oliveira respondeu ao atentado publicando um editorial na primeira página no dia seguinte, sob o título “Banditismo”.

Eis um trecho do texto:

“Os ataques do terrorismo não alterarão a nossa linha de conduta. Como o pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele. Nunca houve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social-realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama. […] Um país, enfim, de onde a subversão -que se alimenta do ódio e cultiva a violência – está sendo definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da imprensa, que reflete os sentimentos deste. Essa mesma imprensa que os remanescentes do terror querem golpear.”
(Editorial: Banditismo – publicado em 22 de setembro de 1971; Octavio Frias de Oliveira).

O presidente da República de então era Emílio Garrastazu Médici. Nomeado presidente pelos militares, comandou o período mais duro da ditadura militar. Foi a época do auge das prisões, torturas e assassinatos de militantes políticos de esquerda pelo regime.

Apesar dos elogios de Frias de Oliveira à ditadura, segundo a Fundação Getúlio Vargas foi no governo Médici que a miséria e a concentração de renda ganharam impulso. O Brasil teve o 9º Produto Nacional Bruto do mundo no período, mas em desnutrição perdia apenas para Índia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão e Filipinas.

O uso político que o jornal Folha de São Paulo começou a fazer neste sábado das desculpas da ditadura para prender e torturar impiedosamente uma garota de 19 anos que lutava para libertar seu país do regime de exceção constitui-se, portanto, em uma vingança póstuma de um homem que dedicou sua vida a uma luta incessante contra a democracia, obviamente por acreditar que o povo não sabia votar.

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Folha de São Paulo

20/11/2010

Dilma tinha código de acesso a arsenal usado por guerrilha

Revelação foi feita em 1970 sob tortura por ex-colega da petista na luta armada e confirmada por ele em entrevista

Grupo VAR-Palmares guardava em imóvel 58 fuzis e 4 metralhadoras; armamento foi roubado de batalhão do ABC

MATHEUS LEITÃO
LUCAS FERRAZ

DE BRASÍLIA

A presidente eleita, Dilma Rousseff, zelava, junto com outros dois militantes, pelo arsenal da VAR-Palmares, organização que combateu a ditadura militar (1964-1985).
Entre os armamentos, havia 58 fuzis Mauser, 4 metralhadoras Ina, 2 revólveres, 3 carabinas, 3 latas de pólvora, 10 bombas de efeito moral, 100 gramas de clorofórmio, 1 rojão de fabricação caseira, 4 latas de “dinamite granulada” e 30 frascos com substâncias para “confecção de matérias explosivas”, como ácido nítrico. Além de caixas com centenas de munições.

A descrição consta do processo que a ditadura abriu contra Dilma e seus colegas nos anos 70. A Folha teve acesso a uma cópia do documento. Com tarja de “reservado”, até anteontem ele estava trancado nos cofres do Superior Tribunal Militar.

Trata-se de depoimento dado em março de 1970 por João Batista de Sousa, militante do mesmo grupo de guerrilha do qual Dilma foi dirigente.

Sob tortura, ele revelou detalhes do arsenal reunido para combater a repressão e disse que Dilma tinha recebido a senha para acessá-lo.

Quarenta anos depois, Sousa confirmou à Folha o que havia dito aos policiais -e deu mais detalhes.

Dilma já havia admitido, em entrevista à Folha em fevereiro, que na juventude fez treinamento com armas de fogo. O documento do STM, porém, é a primeira peça que a vincula diretamente à ação armada durante a ditadura.

Procurada pela Folha, a presidente eleita não quis falar sobre o assunto.
O armamento foi roubado do 10º Batalhão da Força Pública do Estado de São Paulo em São Caetano do Sul (SP), de acordo com o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social).

A ação ocorreu em junho de 1969, mês em que as organizações VPR e Colina se fundiram na VAR-Palmares.

Sousa disse que foi responsável por guardar o arsenal após a fusão. Com medo de ser preso, fez um “código” com o endereço do “aparelho” -como eram chamados os apartamentos onde militantes se escondiam.

Para sua própria segurança e do arsenal, Sousa dividiu o endereço do “aparelho” em Santo André (SP) em duas partes.

Assim, só duas pessoas juntas poderiam saber onde estavam as armas. Uma parte da informação foi entregue a Dilma, codinome “Luisa”. A outra, passada a Antonio Carlos Melo Pereira, guerrilheiro anistiado pelo governo depois de morrer.

O documento registra assim a informação: “Que, tal código, entregou a “Tadeu” e “Luisa”, sendo que deu a cada um uma parte e apenas a junção das duas partes é que poderia o mencionado código ser decifrado”.

“Fiz isso para que Dilma, minha chefe na VAR, pudesse encontrar as armas”, diz, hoje, Sousa.

Tido pelos colegas como um dos mais corajosos da VAR-Palmares, Sousa afirma ter sido torturado por mais de 20 dias. Ficou quatro anos preso e, hoje, pede indenização ao governo federal.

Aposentado, depois de trabalhar como relações públicas e com assistência técnica para carros no interior de São Paulo, ele diz ter votado em Dilma. Na entrevista, chamou a presidente eleita de “minha coordenadora”.

“PONTOS”

Sousa contou que tinha três “pontos” -como eram chamados os locais e horas de encontro na clandestinidade- com Dilma nos dias seguintes à sua prisão. Mas disse que não entregou as datas e endereços durante as sessões de tortura -inclusive com choques elétricos na “cadeira do dragão”.

Sousa participou de operações armadas, como assaltos a bancos e mercados. “Informava todas as ações para Dilma com três dias de antecedência”, declarou.

Com a “dinamite granulada”, por exemplo, ele afirma ter feito bombas com canos de água “cortados no tamanho de quatro polegadas, com pregos dentro”.

Quando 18 militares à paisana cercaram seu “aparelho”, Sousa os recebeu com rajadas de metralhadoras e com as bombas caseiras. Um militar ficou ferido.
Os agentes conseguiram uma trégua após duas horas de intenso tiroteio.

Sousa diz que, meses depois, Dilma contou a ele que, quando ele não apareceu nos encontros previstos, ela usou o código para pegar o arsenal: Dilma e Melo encontraram a casa perfurada de balas e a rua semelhante a uma trincheira de guerra, com enormes buracos.

O depoimento registra 13 bombas jogadas contra os militares. Com um vizinho, Dilma e Melo descobriram que o companheiro esquerdista havia sido levado vivo pela repressão.

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83 Comentário

  1. Devemos direcionar nossa atenção para os primeiros passos da nossa Presidenta na montagem do Governo.
    Reconheçamos, sem medo de errar, que a Presidenta DILMA está trabalhando conforme falou na campanha; erradicar a miséria do Brasil, continuar melhorando a saúde pública, manter o crescimento econômico, acelerar a distribuição de renda, aprofundar o papel do país nas questões mundiais, investir em infraestrutura, manter a agropecuária forte, continuar reduzindo as desigualdades regionais, promover maior capacitação aos brasileiros com mais e melhor educação, ter o país em harmonia, etc.
    Precisamos e devemos reverberar os acertados passos da Presidenta de todos os brasileiros.

  2. A vilânia da Folha em remexer no passado da Presidente Dilma, então uma jovem idealista politica que colocou sua vida em risco para combater um regime de força e exeção constitucional, nos dá a oportunidade de também buscar nos arquivos da ditadura de 64 os documentos da atuação desse jornal nesse período negro da nossa história recente.

    Algum verdugo do regime deve ter anotado nos arquivos do DOPS, DOI/CODI ou da OBAN, os execelentes serviços prestados pela Folha aos então ditadores de plantão e seu auxílio direto e material as atividades dos órgãos de repressão contra os opositores políticos do regime.

    A publicação da história da Folha durante a ditadura e da sua lua-de-mél com os militares e os torturadores, deve também ser trazida a lúz do sól para um saudável processo de restabelecimento da verdade e dos interesses que se escondem sob os atuais ataques desse jornal contra a figura histórica da nossa futura presidente. A Folha e a mídia monopolista a qual pertence estão mostrando as primeiras armas do terceiro turno que Dilma enfrentará em seus 4 anos de mandato!

  3. ISSO É UM CRIME! UM ABSURDO! ESSE JORNALZINHO DE MERDA ESTÁ USANDO AS “INFORMAÇÕES” OBTIDAS EM UM PROCESSO FRAUDULENTO, FEITO POR UM REGIME ASSASSINO, “INFORMAÇÕES” OBTIDAS ATRAVÉS DE TORTURA, PARA ATACAR A PRÓXIMA PRESIDENTE DA REPÚBLICA E AINDA POR CIMA TENTA “TRANSFORMAR EM BONZINHOS” OS MONSTROS TORTURADORES E ASSASSINOS DA DITADURA MILITAR, DITADURA QUE O JORNALZINHO CANALHA APÔIOU, ATRAVÉS DO FASCISTA DEPRAVADO MOR QUE O CRIOU(E QUE JÁ MORREU TARDE!), E AGORA ATRAVÉS DO DEPREVADO JUNINHO, APÔIO QUE NÃO RESTRINGIU-SE À EXALTAÇÃO DO REGIME E À PRODUÇÃO DE “MATÉRIAS” MENTIROSAS PARA DEFENDER A DITADURA MONSTRUOSA, MAS EFETIVOU-SE NA PRÁTICA, ATRAVÉS DO EMPRÉSTIMO DE VEÍCULOS DO JORNALZINHO DE MERDA PARA PARTICIPAREM DOS ASSASSINATOS E TORTURAS DA OPERAÇÃO BANDEIRANTES. PRESTE ATENÇÃO, EDUARDO : TEMOS QUE REAGIR A ISSO; SE JÁ O FAZEM AGORA, QUANDO DILMA NEM SEQUER TOMOU POSSE, ADIVINHEM O QUE FARÃO QUANDO ELA COMEÇAR A CONTRARIAR SEUS INTERESSES, VOLTADOS A MANTER O CONTROLE DA OPINIÃO E DA INFORMAÇÃO E A PERPETUAÇÃO DO MODELO SOCIAL EXCLUDENTE EM NOSSO PAÍS; SE NÃO REAGIRMOS IMEDIATAMENTE, PODEREMOS VER NOSSA AÇÃO FUTURA DESMORALIZADA PELA FOLHA E SEUS ASSECLAS, PRINCIPALMENTE SE ESSA AÇÃO OCORRER NUM MOMENTO EM QUE O GOVERNO DILMA SOFRA GRANDE ATAQUE DA MÍDIA; QUE PODERÁ TRANSFORMAR A REIVINDICAÇÃO DOS QUE EXIGEM UM MÍNIMO DE DECÊNCIA DOS BARÕES DA COMUNICAÇÃO , EM “REAÇÃO DESESPERADA DOS APÓIADORES DE UM GOVERNO COM PROBLEMAS”. AINDA VIVEMOS NUM PAÍS DESPOLITIZADO, POR ISSO É NECESSÁRIO QUE SAIBAMOS MOSTRAR À SOCIEDADE QUEM SÃO SEUS REAIS INIMIGOS DE FORMA CLARA, E REAGIR A ESSA MONSTRUOSIDADE DA FOLHA EM SEU NASCEDOURO, SERIA O IDEAL PARA DESMASCARAR AS INTENÇÕES DO JORNALZINHO DE MERDA E DO RESTANTE DA MÍDIA. COLOCO-ME À DISPOSIÇÃO DO CIDADANIA PARA AJUDAR NESTA REAÇÃO, QUE DEVERIA OCORRER INICIALMENTE NA ESFERA JURÍDICA, COM AJUDA FINANCEIRA E ASSINATURA DE APÔIO.

  4. “GOVERNO RESPEITAVEL E COM INDISCUTIVEL APOIO POPULAR …”

    Era a época dos “90 milhões em ação…
    pra frente Brasil, salve a seleção” e do
    “Ame-o ou deixe-o”.

    A época do Médici era da “modernização” e das exigências do capital trasnacional em desenvolver
    uma “cultura de massa”. Era o período da integração nacional nas telecomunicações, a cargo da Embratel.
    A GLOBO, empresa privada, receberia dos generais o monopólio da televisão e a obrigatoriedade
    de servir aos fascistas e a burguesia mais estúpida, egoísta e reacionária do mundo como principal meio
    de veiculação da ideologia oficial.

    1974
    BRASILIA

    Dez anos após a conquista do Brasil

    A economia está passando muito bem. As pessoas,
    muito mal. As estatísticas oficiais dizem que a ditadura
    militar ransformou o Brasil numa potencia econômica,
    com um alto índice de crescimento do produto interno
    bruto. As estatísticas dizem que o número de brasileiros
    desnutridos passou dos vinte e sete milhões para
    setenta e dois milhões, dos quais treze milhões são
    tão maltratados pela fome que já nem conseguem correr.

    AA.VV. , Retrato do Brasil, cadernos,
    São Paulo, Ed. Trȇs, 1984.

  5. Caro Eduardo…

    você insiste em me surpreender. Me pergunto: voce acha que é apenas a Falha de São Paulo que pensa assim, em ditabranda, no “ame-nos ou deixe-nos”? Se sim; só posso imaginar que voce não está falando sério. Não sei se voce viu a Veja (no Piauí, seria melhor chamar “Oiá” – como dizemos lá em Marcolândia, onde tenho muito orgulho de ter nascido) sobre a eleição de Dilma? Fazia mais de 10 anos que não lia a tal, mas não resisti… Não me surpreendeu; fiquei a pensar, acho que quase todas as pessoas com alguma sensatez pensariam semelhante: será que a dita não notou que quem foi eleita foi Dilma e não o candidato da elite fascio-paulista? Será que seus “jornalistas”, “comentaristas”, “redatores”, a sua folha (e neste caso é folha mesmo) de pagamento, não entenderam que nosso população quisessem ou pensasse aquilo que ela propugna teriam eleito seu candidato e não o nosso, no caso, a nossa? Quem será que o PIG acha que engana?

    Abaixo a elite fascio-paulista!

    Viva o povo brasileiro!

    Leonidas Mendes filho
    (Parauapebas/PA)

  6. Essa crítica ao velho Frias é descabida.

    No texto da foto ele comentou sobre a *política econômica*
    do governo Médici, conduzido pelo atual apoiador
    de Lula, Delfim Neto, que era e é um desenvolvimentista
    cuja obra foi destruida por FHC.

    Embora o golpe de 64 tenha tido teor
    antiVarguista é público e notório que após
    Medici a ditadura vai ficando cada vez mais
    varguista, tanto na economia como
    na política externa, que no governo Geisel
    reconheceu o MPLA e a Frelimo.
    Embora tenham concentrado
    renda eles *criaram* infra estrutura
    enquanto o socialdemocrata
    FHC aniquilou e torturou famílias
    com o desemprego e iniciou
    o processo de destruição da
    infraestrutura da nação.

    Foi o sucesso econômico dos militares
    que os auxiliou derrotar militaremnte a esquerda
    armada e o velho Frias acerta ao comentar
    a aceitação popular da ditadura Medici: é fato
    que parte da esquerda hoje reconhece
    que estava isolada de ampla camada da popula
    ção, que como Lula, estava no Senai se preparando
    para participar do Milagre Economico que foi
    depois abortado com a subida dos juros nos EUA.

    Na época da Guerra fria, um empresário como
    o Frias seria logicamente um apoiador da Ditadura
    e o comentário citado sensato e pertinete do ponto
    de vista de sua classe, na época.

    Os fatos não devem ser usados dessa maneira superfilial,
    ao estilo Folha. Não se critica a Folha fazendo da História
    uma narrativa de folhetim, tipo a luta entre o Bem e o Mal,
    colocando-se o blogueiro como o mensageiro do Bem.

    A Ditatura Militar não foi a encarnação do Mal como
    também os comunistas não comem criancinhas.

    • “Na época da Guerra fria, um empresário como
      o Frias seria logicamente um apoiador da Ditadura…”.E uma estudante de 19 anos, esclarecida e com muito brio, seria logicamente uma opositora àquela ditadura.Cada um com seu valor.

      E.T: sabemos hoje que não eram os comunistas que comiam criancinhas, mas os pedófilos(inclusive padres).

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